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terça-feira, agosto 29, 2006

A quem Lula derrota?

por EMIR SADER

Reproduzido do Jornal do Brasil

Há quem diga que derrota a ''ética na política''. Se disseminou, como em nenhuma campanha de denúncias anteriores de corrupção, a imagem do mensalão pegada ao PT e ao governo. Os efeitos parecem ter se restringido a setores de classe média e especialmente dos estratos mais ricos da população. O efeito formador da opinião por parte da mídia parecia arrasador, mas quando o circuito de opinião pública se alargou, com o início da campanha eleitoral, a massa pobre da população desequilibrou, de forma extremada, a favor de Lula, que não apenas obtém dados que fazem esperar sua vitória no primeiro turno, como assentada em um impressionante caudal de votos populares, que se afirmam como sólido apoio para o presidente.

A campanha contra Lula não o derrotou, embora tenha provocado desgastes significativos na imagem do PT e tenha concentrado os votos do presidente em áreas populares que o partido tem dificuldades grandes em organizar e em transformar em votos petistas. Daí o destaque da liderança de Lula - ''populismo'', ''lulismo'', para as análises tradicionais e conservadoras - em contraste com o enfraquecimento do PT.

Pode-se dizer que Lula derrota, assim, a capacidade de formação de opinião pública por parte da grande mídia. O voto que pode reeleger Lula é sobretudo um voto social, pelo efeito de suas políticas sociais que, pela primeira vez na história do Brasil, fazem reverter - ainda que tenuamente - o ponteiro da desigualdade na direção da igualdade.

Mas pode-se também dizer que Lula derrota especialmente a elite tradicional brasileira. Suas políticas sociais não seguem as propostas históricas do PT de universalização de direitos, são políticas assistenciais. Porém, sua escala, nunca conhecida no Brasil, permite um processo de redistribuição de renda e de acesso a bens - de que da eletrificação rural é um exemplo claro - que dificilmente poderia ser reduzida a ''assistencialismo''.

Longe de ser uma política revolucionária, que reverta estruturalmente a desigualdade brasileira - para o que seria necessário, entre tantas outras iniciativas, uma política sólida de emprego - ela revela como os governos anteriores nem sequer isso fizeram. Todo o discurso ''social'' do governo FH, materializado no que se promoveram como as políticas levadas a cabo pela então primeira dama, Ruth Cardoso, durante oito anos, não impediram que o ex-presidente tenha ficado para a história e para a consciência popular como um governante dos ricos. O selo mais marcante do governo FH, do ponto de vista social, foi o da acentuação da concentração de renda, pela retração das responsabilidades estatais na área social, pelos processos de privatização e de precarização das relações de trabalho.

A eventual vitória de Lula - até mesmo no primeiro turno - se volta assim contra dois pilares do poder no mundo contemporâneo: o monopólio da palavra e o monopólio da riqueza. A consciência disso pode levar a um segundo governo com uma consciência social clara do projeto de que o Brasil precisa para superar o principal estigma herdado - a verdadeira ''herança maldita'': as desigualdades, as exclusões e as injustiças sociais.

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